sábado, 13 de novembro de 2010

Falar é prata, ouvir é ouro...

Esta semana parei e fiquei a pensar... às vezes pensamos que nossa vida é tão sem graça, parada..., mas fazendo alusão a minha vida de ex-obesa e relembrando dos meus relatórios alimentares, sim, pois durante o período de terapia em grupo temos que fazê-los, só depois que comecei a escrever o blog, foi que me dei conta de quantas coisas interessantes acontecem no meu dia a dia. De que minha vida não é tão insignificante quanto meu egoísmo me fazia ver.

Na última quinta, vivenciei uma experiência que para mim foi única. Há anos a Hilda trabalha conosco, não seguidamente, ela cuidou de nós quando éramos pequenos, saiu e depois de anos voltou a trabalhar na casa da minha irmã quando minha sobrinha nasceu e só então voltou a trabalhar aqui em casa... o que essa baixinha tem a ver com a história? Já explico. Quando eu digo baixinha é no sentido real da palavra, ela sofre de nanismo congênito e esse problema lhe afeta muitas áreas de sua saúde, e no caso dela a audição.

A audição... um dos sentidos mais importantes para nós, sem ele tudo fica muito mais difícil, não que a falta dos outros sentidos como a visão não faça falta, muito pelo contrário, tudo que nos falta faz uma diferença imensa e nos traz sérios problemas, preconceitos e uma infinidades de restrições que as pessoas "normais" impõem aos "deficientes"...

Pelos programas governamentais para inclusão dos portadores de necessidades especiais há o fornecimento de aparelhos auditivos aos que deles dependem e esse é o caso da minha baixinha... Ela não escuta absolutamente nada abaixo de 90 decibéis, já pensou ter que ficar o dia todo gritando com uma pessoa com quem se quer falar? Atrapalha muito, não só a vida dela, mas também a nossa, pois dói a garganta, a gente passa a só falar gritado... e as coisas gritadas parecem ser ditas com raiva, isso traz um desgaste em quem não ouve e em quem tem que berrar tudo o que quer.

E eu, para sanar parte desse problema, ou ao menos atenuá-lo a inscrevi nesse programa, mas sabe como são as coisas do governo... uma demora tão grande que eu tive medo de que lhe acontecesse algo e ela não pudesse receber seu aparelho auditivo. Mas por fim, há um mês chamaram-na para receber o bendito aparelho... Na primeira consulta com a fonoaudióloga fez-se o molde, na segunda consulta, que foi nesta semana, experimentou-se o aparelho e é essa experiência que muito me alegrou e que eu enrolei até aqui para contar.

A fono pegou os aparelhos e ajustou-os até que ficassem totalmente adaptados à orelhinha da Hilda, depois ligou uns cabos a um computador que possui um programa especial para regular o som, testou e colocou as pilhas e logo em seguida encaixou-os na orelha dela. Depois dos devidos ajustes no software, o aparelho começou a funcionar e enquanto isso a fono começou a conversar comigo sem que eu soubesse que a pequena ouvia, perguntou-me se alguma vez ela já havia usado aparelho auditivo, e umas outras coisas pertinentes ao atendimento que estava sendo prestado.

Depois ela começou a conversar com a baixinha para ver o que ela havia escutado, se realmente havia escutado alguma coisa, para minha surpresa ela ouvira tudo o que falávamos (ainda bem que não falei mal dela, aahahahaha poderia ser que ficasse chateada). Sabe, quando a terapeuta começou a conversar mais com ela, a baixinha ficou felicíssima, com cara de criança que acaba de ganhar o presente que pediu ao Papai Noel, e ria, e falava, e respondia, e ria novamente...

Para mim, ter presenciado a alegria dela e saber que tive participação nisso vale mais que ganhar em quinhentas loterias acumuladas. Não estou me vangloriando, outros poderiam fazer o mesmo que fiz, o que me alegra mais e o que não sai da minha mente é a carinha de felicidade e satisfação que ela estava. É impagável poder ver isso, saber que a gente contribuiu com aquilo.

De lá ela foi pra sua casa e eu vim para a minha, no dia seguinte ela chegou aqui e correu para contar a minha mãe o que acontecera no dia anterior, havia tanta felicidade, tanta alegria em seu sorriso que choro só de lembrar... Sabe, acho que tenho uma dívida de gratidão com ela, faço porque tudo o que eu fizer será pouco para retribuir a dedicação com a qual ela cuidou da gente quando éramos crianças e que minha mãe tinha que trabalhar o dia inteiro para conseguir ajudar com as despesas da casa.



Ver sua alegria estampada na face não tem preço! É nessas horas que vemos o quanto é importante para nós podermos escutar o que nos dizem e mesmo assim muitas vezes ainda negligenciamos não dando ouvidos a quem nos quer bem. Acabei de lembrar daquele ditado que diz assim... "Falar é prata, ouvir é ouro..." só quem não tem sabe perfeitamente a extensão da importancia de poder ouvir.

Depois, ficar pensando que não há nada de interessante para escrever é no mínimo não reconhecer a dádiva da vida, é não perceber quantas coisas legais acontecem conosco no cotidiano... Não faço mais isso desde que passei a escrever meus relatórios de vida e agora não largo nunca mais...

Um comentário:

  1. Luciana,

    Não sei bem o motivo, mas egoísmo pode ser um deles. Nos pegamos, muitas vezes, pensando em nós mesmos, em nossas dificuldades, nossos problemas, etc. e nos esquecemos do outro.

    Quando resolvemos nossos problemas, nos sentimos leves ou preocupados com os próximos que virão, mas quando ajudamos o próximo, não tem preço. A alegria do outro é tão grande que nos invade em dobro.

    Sua atitude foi fantástica! E contar esta experiência também!

    Adorei seu blog e já estou te seguindo! E estou no augardo de novo post.

    Se quiser, me faça uma visita e siga meu blog:
    http://pequenocaminho.blogspot.com

    Uma beijoca!

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